BELIGERÂNCIA E BARBÁRIE: O ORIENTE MÉDIO EM RISCO
Há momentos em que a política internacional deixa de ser apenas disputa de interesses e se torna ameaça aberta ao processo civilizatório. É isso que se vê quando a retórica agressiva de Donald Trump e a condução militar de Benjamin Netanyahu convergem para ampliar a devastação no Oriente Médio. Não se trata apenas de divergências diplomáticas ou de “estilos fortes” de liderança. Trata-se de uma combinação explosiva entre poder militar, linguagem de intimidação e desprezo crescente por limites jurídicos e humanitários.
Quando um presidente dos Estados Unidos ameaça que “uma civilização inteira morrerá esta noite” se suas exigências não forem atendidas, ele não apenas radicaliza um conflito. Ele ajuda a normalizar a linguagem do extermínio como instrumento de pressão política. Quando, ao mesmo tempo, o governo israelense mantém práticas denunciadas internacionalmente por bloqueio de ajuda, expansão ofensiva e afronta a instâncias como a Corte Penal Internacional, o que se consolida é um horizonte de força sem freio, onde a paz deixa de ser horizonte e a barbárie volta a ser método.
1. A linguagem da força como política de mundo
A retórica de Trump não é mero exagero verbal. Ela produz efeitos reais. Ao ameaçar a destruição de infraestrutura civil e apresentar ultimatos em termos apocalípticos, ele desorganiza a diplomacia, encoraja respostas simétricas e torna mais improvável qualquer saída negociada. Não é casual que suas falas tenham sido alvo de condenação internacional, inclusive do Papa Leão XIV, que classificou como “verdadeiramente inaceitável” a ameaça dirigida contra o Irã e voltou a denunciar ataques a infraestrutura civil como violação do direito internacional.
A política externa baseada em humilhação pública, chantagem militar e exibição de força pode render aplausos entre admiradores do autoritarismo, mas corrói os fundamentos mínimos da convivência internacional. Não há estabilidade global quando grandes potências tratam povos inteiros como peças descartáveis. Não há ordem internacional séria quando ameaças potencialmente genocidas são lançadas como se fossem simples ferramenta de negociação.
Essa escolha por uma diplomacia do medo rebaixa o nível moral da política mundial. O que se vende como firmeza estratégica muitas vezes é apenas irresponsabilidade com armas na mão. O resultado previsível é a multiplicação de frentes de guerra, o encarecimento da energia, o colapso de corredores comerciais e o aprofundamento de sofrimentos civis em escala regional e global.
2. Netanyahu e a normalização da guerra permanente
No caso de Netanyahu, a crítica não depende de slogans, mas de fatos persistentes. Em 2025, Israel foi levado ao exame da Corte Internacional de Justiça por causa do bloqueio à ajuda humanitária em Gaza, e o tema voltou ao centro do debate internacional pela acusação de que a recusa ou restrição de assistência viola obrigações básicas do direito internacional. Também em 2025, o governo israelense pediu à Corte Penal Internacional a retirada dos mandados de prisão contra Netanyahu e seu então ministro da Defesa; em julho daquele ano, os juízes rejeitaram o pedido de retirada e também a suspensão da investigação mais ampla.
Mais do que um episódio jurídico, isso revela um padrão político: agir no limite — ou além dele — e depois tratar as instituições internacionais como obstáculos incômodos. O bloqueio de suprimentos a Gaza, a entrada insuficiente de ajuda mesmo sob pressão internacional, e as declarações sobre controle total do território expõem uma lógica em que segurança nacional é convertida em licença para submeter populações inteiras a condições insustentáveis.
A guerra prolongada, quando deixa de ser resposta e passa a ser método de governo, deforma o próprio Estado que a conduz. A violência continuada dessensibiliza a opinião pública, militariza o imaginário social e alimenta lideranças que só sobrevivem politicamente em estado de crise. É assim que o conflito deixa de ser tragédia a superar e passa a ser combustível de poder.
3. O colapso humanitário e o risco civilizatório
Os custos humanos dessa convergência belicista são devastadores. Segundo a Reuters, a guerra em Gaza já havia provocado mais de 72 mil mortes palestinas até abril de 2026, além de destruição generalizada, deslocamento em massa e fome. Mesmo após o cessar-fogo de outubro de 2025, mais de 700 palestinos teriam sido mortos por fogo israelense, enquanto negociações permanecem travadas por exigências incompatíveis e ausência de confiança mínima entre as partes.
No entorno regional, a escalada entre Estados Unidos, Israel e Irã amplia o risco de um conflito de consequências muito mais abrangentes. As ameaças sobre o Estreito de Ormuz e as reações militares em pontos estratégicos do Golfo revelam que não se trata apenas de uma crise bilateral. Qualquer descontrole aí afeta comércio global, energia, abastecimento e segurança internacional. Quando se brinca com corredores vitais da economia mundial, não se ameaça apenas um adversário. Coloca-se o planeta inteiro em zona de risco.
É precisamente por isso que a beligerância de Trump e Netanyahu não pode ser tratada como simples dureza geopolítica. Ela sabota o processo civilizatório porque dissolve limites éticos, enfraquece instituições internacionais, banaliza a morte em massa e torna aceitável o que deveria ser impensável. A barbárie começa quando o sofrimento alheio deixa de importar e passa a ser calculado como dano colateral administrável.
4. O que está em jogo para a humanidade
O maior perigo talvez seja a naturalização. O mundo se acostuma a imagens de cidades destruídas, crianças soterradas, fome fabricada, infraestrutura civil ameaçada e lideranças tratando a guerra como espetáculo de força. Quando isso se torna rotina, a humanidade adoece moralmente. A paz deixa de ser uma exigência e vira ingenuidade aos olhos dos cínicos.
Mas a história mostra que o cinismo bélico cobra caro. Ele pode até produzir ganhos imediatos para líderes cercados por crises internas, mas destrói legitimidade, semeia ódio duradouro e empurra gerações inteiras para o trauma e a radicalização. Nenhum projeto sério de civilização pode ser construído sobre ruínas humanas tratadas com indiferença.
Se há uma tarefa urgente para o presente, ela consiste em recolocar o direito internacional, a diplomacia e a proteção da vida civil no centro do debate. Não como ornamento moral, mas como limite concreto ao delírio dos que imaginam que força militar resolve aquilo que, no fundo, exige justiça, negociação, responsabilidade e coragem política para parar.
Um convite à reflexão
O Oriente Médio não precisa de líderes que falem como incendiários e governem como se a dor de povos inteiros fosse detalhe estratégico. Precisa de estadistas capazes de reconhecer limites, honrar acordos e frear a lógica da aniquilação.
A questão que se impõe não é apenas o que Trump e Netanyahu farão amanhã. É o que o restante do mundo aceitará calado hoje. Se a comunidade internacional continuar tratando ameaças extremas, bloqueios humanitários e afrontas ao direito como fatos consumados, a barbárie avançará com aparência de normalidade.
Defender a paz, neste contexto, não é gesto ingênuo. É ato de responsabilidade civilizatória. O mundo precisa voltar a dizer, com clareza: não há segurança legítima sem humanidade; não há liderança legítima sem limites; não há futuro possível quando a guerra é conduzida como método de governo.
Por Harlei Noro | Pensamento crítico com apoio AI.




